quarta-feira, 21 de junho de 2017

A Proposta

Por Helena Frenzel

Na maior parte do tempo te acusavas de falar demasiado. Teu problema, no entanto, sempre foi ouvir demais. Eram vozes, muitas vozes, miríades, caos; muito barulho em tua cabeça, confusão mental era tua queixa-mor. Não sei quantas vezes te vi rolar pelo chão e encaracolar-te buscando um canto. Era evidente o tanto que precisavas de silêncio, nem o ar parecia te ser mais necessário do que aquela pretensa paz, buscada a cabeçadas nas paredes, para depois, o torpor.
Tantas vezes testemunhei como tentaste prescindir da vida e dos ruídos, da existência e da razão. E tinhas razão! Era necessário que tu, que demonstravas querer calar todas as vozes, incluindo a tua, que tu, que tentavas aquietar sem dizer mais nada, que tu...
Bem, algo seguia movendo tua mandíbula, obrigando-te à produção de surdos sons semânticos, pragmáticos, esses sons e barulhos, burburinho e ruídos, esses gritos que nasciam de desabafos e refletiam a tua tão somente tua resignação ao prático, tudo incluído no teu “sim” de todos os dias e algo que te obrigava a ele. A vida, o sustento à família?, me pergunto. Fosse o que fosse, era sempre algo externo, sempre algo para já, quem sabe uma doença dessas dos tempos maus modernos, vá saber...
“Se é loucura ouvir vozes”, te perguntavas. Não. “Obedecê-las ao ouvi-las, isso sim, seria” e era o que proclamavas porque era o mais sensato e a manifestação de um espírito livre, tudo aquilo que tu não és.
Sempre haverá alguém para distribuir ordens, ordens e conselhos não pedidos, ordens e conselhos não solicitados e opiniões, ordens, conselhos não desejados, críticas sem construção e opiniões vazias, coisas que não pediste nem precisas, artefatos comprados com dinheiro mal-lavado, sem os quais podias viver, ou poderias, e em meio a esse clima ela ainda achou de vir à tua casa, não bastou ter telefonado pela manhã.
E veio com aquele risinho debochado, com aquela arrogância tão comum de insensíveis mercenários, com aquela expressão não só de estar, porém de achar-se ser mais e melhor. Entrou com o queixo erguido pois tinha as chaves, seguiu com o nariz por cima, olhando por baixo dos cílios, pintados, registrando a desordem do local. Se não havia ordem em tua cabeça como porias ordem em teu espaço? Bobagem, não? Ela parou no meio da sala e girou nos calcanhares sobre finos saltos de marca; o piso de tacos protestou e não foi o único, um dos companheiros tapou os ouvidos para evitar aquele ruído de unhas riscando quadros de colégios muito antigos, coisas de anos atrás. E ela olhou para ti fazendo um bico de nojo, como quem diz: “O inferno é mais limpo que este teu cubículo!” e não reagiste. Vestia um casaco de peles, talvez autêntico porque era má, e era inverno, trazia os braços colados ao corpo, como temendo qualquer contato e uma certa contaminação com teu espaço. Abriu a boca e disse: “Eu, em teu lugar...” e com um olhar de falsa pena e polidez muito treinada continuou o discurso, o que te tirou do sério e fez tapar os ouvidos, suplicando em fracos gemidos que te deixasse em paz. Tua boca se movia como se estivesses protagonizando um filme mudo, nenhum som inteligível saía com força de ti, mas era claro que gritavas mudamente, tinhas uma expressão transparente de dor. Era como se dissesses: “Tu, em meu lugar, não farias nada disso! Tu, em meu lugar, não obrigarias ninguém a nada! Não era a tua boca a que eles maculavam, não era o teu corpo que deixaria de ser teu, abandonado pela alma no inferno desses momentos.”
Foi grande o teu desespero ao notar que nada a faria calar e tua cabeça parecia latejar no ritmo alucinante que teu corpo denunciou, em tremores. Os tacos gemeram sob teus pés nervosos, tapaste os ouvidos com as mãos em concha e deste com a testa na parede, tantas e tantas vezes até que te viraste e tomaste o vaso e... quebraste o espelho, e lá perdemos o primeiro plano.
“E não sejas dramática!”, ela exclamou com voz camuflada de compreensão. Temi até que seriamente te machucasses. Há tempos havíamos notado que não existia um só quadro em todo o teu apartamento, isso logo me chamou a atenção, não havia em teu cubículo nada pessoal, tu tentas não deixar marcas, buscas tão somente existir sem cultivar nada, mas tuas crises denunciaram teu forte desejo de pedir ajuda. Tu sofrias e eu —acreditas?—, sofria contigo. Eu sofria, mas não podia me intrometer, não ainda. Nada neste mundo, neste país e neste cubículo, nada dentro de ti seria capaz de remeter-te ao vazio que poderia salvar-te, isto disseste uma vez, lembras?
Mas não, tu não a ouvias e ela seguia, e assim seguiram naquele crepúsculo. Ela, com as cobranças e a narrativa porque diálogo em que um só fala não é diálogo, porque ouvir perde o sentido e o tato e o cheiro e o paladar, sem falar da vista. A um cego não passaria despercebida a tua dor, mas a ela, a cega que tanto via e sempre tinha razão e tudo sabia melhor, ela não perceberia jamais...
“E ventila este quarto e abre a janela e deixa de fraqueza, e reage e te maquia, corta o cabelo e te veste melhor, e te move e te mexe e faz o que eles quiserem porque eles mandam e não tens que reclamar, e telefona e me conta e pede instruções e me deixa saber de tudo e deixo aqui dinheiro para as despesas e o contrato, pois sei que tu consegues, e aproveita a chance e compra um perfume caro porque eles querem uma Barbie. A geladeira está vazia e não digas que me equivoco, ou queres dormir na rua? É muito frio, eu em teu lugar...”
“Não!”, desta vez gritaste. Parecia haver vozes, muitas vozes em tua cabeça, não é verdade? E ela seguia com mais sugestões: “Aprende a fazer yoga, que melhora a circulação, e pilates, que ensina a respirar e mantém o corpo esguio e...” “Há quanto tempo não respiro?”, gritaste tentando interrompê-la uma vez mais. Há quanto tempo não saías para caminhar e tomar ar puro? “Sei que as veredas me salvarão”, continuaste e eu completei: “Porque o bosque salva as almas da perdição de homens e mulheres, de maridos traídos e de filhas sem pai nem mãe e dos ruídos e da resignação aos superiores e do medo de todos os modos, físicos e psicológicos e, o mais importante: produz tempo para pensar, mas, para pensar, antes, era preciso calar as vozes!” Meus companheiros, neste momento, me olharam estarrecidos e se preocuparam, tão grande era a nossa conexão, a minha contigo. Podias sentir-me?
Ela te ignorou e, num surto, ou numa overdose de coragem, não hesitaste e tiveste a ação de, em frente à lareira, virar-te e pegar o ferro e usá-lo, primeiro batendo nos ombros para desviar as tentativas de defesa dos braços e jogá-la contra a parede, feito uma aranha, depois empurrando com força, em giro, bem no estômago ou bem no coração, com uma força que eu não imaginava que tinhas em ti e cheguei a sentir o ferro vencer a resistência das carnes e sair diagonal do outro lado, forte e vermelho como o sol que se punha lá fora e anunciava bom tempo para o dia seguinte.
Cessou o grito. Por alguns segundos ficaste parada, o cabo do ferro em tuas mãos. Então soltaste o cabo e foram as duas desabando, ela sobre o tapete, sujando a parede de sangue e tu, sobre o sofá. 
Ficamos petrificados com a tua performance e, embora acostumados a coisas horríveis, surpreendeu-nos tua reação, te juro. Há uma câmera sobre tua porta, uma câmera guardiã, como chamamos, vês?
Teu destino era o ouvir e não o falar, era obedecer sem questionar, mas as vozes tiraram tua sanidade e num segundo tudo transbordou, como sempre transborda. Se não sabes o que te moveu de fato, nós tampouco.
Olhavas o tapete por entre os dedos, com os quais tentavas inutilmente tapar teus olhos, boca e ouvidos, como num tipo de máscara de tortura. Passaste um bom tempo muito quieta, parecias não saber o que fizeste, fitavas o rio vermelho criando afluentes no tapete branco naquela sala alugada a seiscentos por mês. Claro que nos informamos também do preço e da vizinhança, quem pensas que somos?
Fitavas a cara dela sem vida, retorcida num grito sem expressão. Tudo nela era postiço, dos seios aos cílios, das unhas ao sorriso, do amor à proteção. “Talvez me invejasse”, chegaste a murmurar, “quem sabe odiasse até”. Estou contigo nesta tese.
E em poucos minutos testemunhamos que um sentimento prático moveu-te a enrolar no tapete o cadáver e a acender a lareira e a esconder nas brasas evidências e o ferro, a livrar-te de uma vez por todas das ordens, das ordens e conselhos não pedidos, das ordens e conselhos e opiniões, das ordens, conselhos, críticas e opiniões vazias, de tudo o que não pediste nem precisas, artefatos sem os quais podias viver, ou poderias, e em meio a esse clima foste até a cozinha e apanhaste os sacos e os panos e os baldes e o rodo e a fita adesiva e deste graças ao fato dela ser mignon. Como alguém  tão miúdo podia ser tão sem escrúpulos? Isso nos perguntamos também nós. Os melhores perfumes nos mínimos frascos? Não, o cheiro que emanava dela era enxofre puro, disseste uma vez. Talvez tivesses apenas imaginado, mas...
Ao término do trabalho já não havia luz lá fora, esperarias a madrugada para pegar o carrinho de compras e descer até a garagem, tapetes persa estavam em promoção e eram apreciados no mercado das pulgas, o bosque não estava tão distante e... Bom, disto sabemos porque um de nós já esperava lá fora, esperava desde o momento em que ela entrou. De volta ao apartamento, teu problema seguia sendo o que fazer com as vozes que te assolavam, não? E quando, ao menos momentaneamente, haviam calado as ordens, ligaste o som e te puseste a ouvir Ravel.
Não me olhes com espanto... Sou erudito porque cursei artes cênicas antes de fazer o que faço agora, os colegas não me estranham mais, a vida dá voltas e esse é o meu tom natural: cínico, distante? Não, fato é que depois de Ravel baixaste a tela do laptop, nosso terceiro plano, e não pudemos ver o que fizeste depois, mas o que tínhamos gravado nos bastou e não quisemos esperar o próximo crepúsculo para procurar-te e fazer a proposta. Como vês, não te denunciamos nem vamos denunciar, ela era um ser humano desprezível, então fica elas por elas. Ocorre que tua clientela vale muito e estamos certos de que podemos negociar.

Tentar o suicídio é bobagem, moça, sei que queres a vida, só precisas de alguém que te tire deste lamaçal, podemos ajudar-te e isso eu garanto. Eu, em teu lugar, pensaria melhor... Afinal, liberdade é um lenço muito fino, quase invisível, e que vive passando de mãos em mãos, não concordas? Tão fino que chega a confundir-se com cordas, cordas que nas costas nos dão, ou enforcam... Vivemos nas sombras e ouvimos até as vozes em tua cabeça, quem acreditaria que existimos? Mas uma coisa te digo: estás sempre livre para escolher.


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quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Vale dos Reis e a Campina da Cascavel


Por Michele Calliari Marchese

Estive lendo esses dias um livro intitulado “Tutancâmon – O último segredo”, que me foi presenteado por um cunhado gente fina, sabedor que sou uma aficionada por livros de toda sorte. Escrito romanticamente por Christian Jacq, conta a história de um advogado que busca o último segredo da tumba do faraó mais misterioso de que se teve notícia e esse último segredo, terminadas as quatrocentas e setenta e seis páginas, continua em segredo.

Mas não é sobre esse segredo que venho alertar a nobre população da Campina da Cascavel cujos campos abrigam imensos cemitérios indígenas, suplantando o mísero Vale dos Reis, no Egito, onde foram encontradas grande parte das tumbas dos faraós de suas esposas e dignitários, digo grande parte porque acredito que os arqueólogos ainda têm muito a desenterrar. Enquanto que aqui na Campina deve-se mantê-los todos enterrados para não correr-se o risco de nossa linda cidade sumir do mapa e virar um grandioso, esbelto e radiante canteiro de obras apinhado de arqueólogos de todos os países, ladrões de tumbas, escravos e algum casal em clima romântico.

Enquanto lia o dito livro me vinha à mente a simples ideia de que todas aquelas tumbas achadas e desenterradas e suas múmias devidamente qualificadas em algum museu pelo mundo afora fossem extraterrestres.

Sei que pareço insistente sobre esse assunto, pois eu mesma não acredito na existência deles, ou acredito, não sei. O fato é que pode ser que eles se recolheram em suas tumbas, que são verdadeiras moradias, com suprimentos, bibelôs, muitos tesouros e diários escritos hieroglificamente em lindos papiros capazes de sobreviver eternamente para depois voltarem, algum dia, num tempo remoto e fazer renascer aquela ordem de pessoas faraônicas, cujo Estado era rico e produtor com muita tecnologia e serviço braçal.

Imaginem Tutmés III reviver do nada e rasgar suas ataduras, olhar em volta e pedir pela tia. Ficaria irado com a situação e chamaria por telepatia todos os seus asseclas, ancestrais e sucessores para numa ordem eliminar tudo o que foi feito após o descanso de todos, cujas naves partiram numa linda tarde primaveril sem ninguém perceber.

Creio que os primeiros a assustarem-se seriam os guardadores das referidas múmias, depois, é lógico, o restante da população; que perceberia tardiamente não ter nenhum conhecimento básico sobre como resolver o imbróglio, e o imbróglio atingiria proporções inimagináveis, tendo Osíris como comandante supremo e praticamente único solapando aqui e acolá a desencavar os mortos enterrados a mais de sete palmos de fundura nas ilhas Fiji.

Claro que suas esposas também estariam andando pelas principais ruas de Paris, procurando ataduras de outras cores para adornar o corpo de cinco mil anos e joias, muitas joias. Decerto desvendei o grandioso mistério do gosto que as mulheres têm por joias, muitas joias, de todos os tipos, para usar e para guardar. Não esqueçamos os sapatos que elas arrematariam sem dó nem piedade em alguma lojinha de Cingapura com um simples olhar enviesado; quem em sã consciência enfrentaria a ira de uma Karomama? Mesmo sendo dessa última esposa de faraó encontrada (e ainda atordoada pelo seu desenterro) em dezembro de 2014, em Luxor no Egito? Ninguém.

Alerto a população não conspurcarem seus mortos e enterrados debaixo de nossas humildes casas, e se, num momento inexato da história, esses mesmos extraterrestres que formaram uma das maiores civilizações do mundo, também quisessem formar uma das menores? Os índios da Campina da Cascavel. Quem haverá de dizer o contrário? Quem poderá iluminar nossas mentes?

Pensem comigo: Estavam cansados de alguma coisa, e não precisa de muita coisa para se cansar, eles, os índios da Campina, resolveram em comum acordo guardar seus pertences, seus corpos e utensílios debaixo da terra para que ninguém mexesse e para que quando voltassem encontrassem a casa organizada tal e qual deixaram e iriam simplesmente utilizar os corpos outrora dormitando e seguiriam em seu curso natural da vida, mesmo tendo-se passado uns três mil anos.

Pois quando chegam a casa direto para seus corpos e abrem os olhos, dão de cara com milhares de pessoas olhando-os e analisando e conversando em línguas inexistentes na época que saíram para o veraneio. Enlouquecedor, eu penso. Fora os flashes de máquinas fotográficas e o choro convulsivo de alguma criança que jurou ter visto a múmia olhando para ela. E estava, de fato.

Deixemos nossos sítios arqueológicos em paz. Para o nosso próprio bem, pois ninguém me tira da cabeça que os extraterrestres estão perdidos quando fazem os círculos ingleses em Ipuaçú, eles estão de fato procurando suas tumbas (aqui na Campina) deixadas outrora em descanso para retornarem a seus lares bem felizes, porém estão errando de direção em alguma curva calculada erroneamente por algum piloto inexperiente.





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quarta-feira, 7 de junho de 2017

Uma agulha no coração


Por Michele Calliari Marchese

Quando eu era criança e me deixavam participar de alguma conversa de adulto, ouvi várias vezes a respeito de mulheres que morriam por causa de alguma agulha invasora. Acredito que hoje esse papo é furado.

A conversa era assim: “Você conheceu a Maria Luiza? Não? Morreu. Morreu por causa de uma agulha que ela espetara em sua roupa enquanto cosia alguma coisa e a agulha andou pelo corpo indo parar no coração.”

“Coitada!” Diziam as outras e eu também. Credo em cruz uma agulha percorrer o corpo e parar bem certeira no coração. E toda vez que contavam essa história, porém com protagonistas diferentes, eu perguntava se era aquela mesma que tinham falado no outro dia e me diziam que não, que era outra e lembro-me de ter ficado penalizada com a quantidade de mulheres que morriam em decorrência de agulhas que andavam dentro do corpo.

Doía-me o peito. Juro. Cheguei a questionar minha mãe se eu mesma não tinha uma a andar dentro de mim. Minha mãe com a delicadeza pertinente a todas as mães me dizia: “Mas que bobagem” e seguia rindo pela casa. Eu chorava pensando nisso e ao mesmo tempo achava estranho porque eu costumava costurar roupinhas para minhas bonecas e várias vezes espetei o dedo com aquela maldita, que espera que a gente pisque para entrar em nossas carnes, e ficava apavorada só em pensar no mísero pique doído que recebera um pouco antes e o que dirá entrar no corpo pinicando sem parar o coração? Para não perder a agulha passava-a pela roupa, ora na barriga, ora no peito, epa epa epa no peito não, vai que entra aquele metal pontiagudo matador de mulheres distraídas.

Bom, o fato é que cresci com a ideia fixa de que tinha uma agulha dentro de mim e que dentro em breve bateria as botas e ninguém saberia o porquê.  E continuei escutando conversas desse tipo e ainda piores, muito piores e que não escrevo aqui para não assustar quem está lendo.

Quando me mudei para a Campina da Cascavel nunca mais ouvi conversas desse tipo e calculei que as mulheres que morriam de agulha no coração residiam somente na minha cidade natal. Mas eu jurava que tinha uma e era somente uma questão de tempo.

Não pulava muito nos folguedos de criança para que a agulha não andasse muito rápida e quando eu caía sentia uma dor atroz no coração. Era a agulha! Ninguém sabia desse meu medo infantil e que tinha até tamanho: 4 centímetros. Quatro centímetros! Era muita coisa para um ser do meu tamanho. Deveria estar atravessando as paredes do meu frágil coração e em alguns minutos extinguiria minha consciência e eu finalmente iria para o céu. Todas as mulheres que morrem com agulha no coração vão para o céu. Fiquei bastante tempo deitada esperando ir para o céu quando minha irmã me chamou para jogar no novíssimo vídeo game Odyssey um jogo chamado “Senhor das Trevas”. Como não tinha morrido até aquele momento eu fui jogar.

Passados trinta e tantos anos, nós ainda chamamos um de nossos tios por esse nome de jogo. Mas isso é irrelevante.

Passemos às agulhas invasoras de coração.

Como o tempo traz o esquecimento temporário eu esqueci também – em dias alternados – a dita molestadora do meu coração. Tinha ocupação aquela devastadora de artérias coronarianas. Ou meu coração tinha as paredes tão duras que estava difícil de ela me matar, ou quem sabe, tinha enferrujado e eu estaria com ferro suficiente no organismo para uma futura gravidez, o que de fato confirmou-se muitos anos depois. Deve ter sido isso. Mas naquela época eu não cogitava em ser mãe de modo que esse papo de ferro e ferrugem é balela.

Comecei a trabalhar e o primeiro salário que recebi guardei-o para um belíssimo raio-X. Pedi para a minha mãe ir atrás disso, porque agora eu era uma trabalhadora com uma agulha no peito e também com treze anos eu nada podia e eu tinha que saber se tinha ou não e ela tinha que me ajudar. Porém, com toda aquela delicadeza que só as mães têm, ouvi-a dizer pela enésima vez “quanta bobagem” e rir também pela enésima vez. Gastei o dinheiro num colete de lã bege, muito em voga naquela época e quando cheguei a casa com a sacola da compra eu disse: “pelo menos morro de roupa nova”.

Alguns anos depois escutando o jornal na televisão, tinha uma reportagem que mostrava uma pessoa com uma tesoura dentro do seu corpo. Pelo amor de Deus. A minha agulha de estimação não era nada comparada àquilo, cheguei a pedir perdão para ela, pois era uma presa cativa e eu realmente gostava dela e de todos os momentos que passamos juntas.

Tive que fazer vinte e um para poder finalmente fazer o bendito do raio-X.

Claro que não havia nada além dos ossos e tive que me despedir friamente de minha amiga imaginária. Ou não.








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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Quem descobriu a Campina da Cascavel?


Por Michele Calliari Marchese

Estive às voltas com o livro “1434” de Gavin Menzies. Além de recomendar a leitura, recomendo que abram a mente antes de ler, pois a infinidade de explicações complexas sobre como os chineses descobriram as latitudes e longitudes para nortearem-se ao mar é de tirar o fôlego.

Uma das coisas mais impressionantes é a riqueza dos detalhes cartográficos chineses e de como, naqueles tempos, os únicos que sabiam que a terra era redonda eram eles, elaborando um minucioso mapa múndi, redondo, é lógico, para presentear os soberanos europeus em troca de alguns míseros trocadinhos anuais. Coisa impensável nos dias de hoje.

Lá, naqueles lindíssimos mapas, aparece nosso país, cujo nome europeizado era “Brazilis”. Então Ilha de Vera Cruz, Terra de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz do Brasil e etc., que, segundo o livro, é tudo invencionice de Portugal para dizer que conseguiram descobrir alguma coisa. Estão tentando modificar a história mundial dentro em breve e torço para que consigam logo, para que as próximas gerações saibam a verdade sobre os descobrimentos.

Dentro da fertilidade da minha massa cinzenta ousaria dizer e afirmar que a Campina da Cascavel também foi descoberta pelos chineses lá pelos idos de 1313 quando a frota do impiedoso Zeng He já circunavegava os mares. Creio que uma de suas embarcações sofreu com algum cataclismo exacerbado e impossível, fazendo com que ondas de mais de mil metros de altura e velocidades enfartantes erguessem a nau chinesa, fazendo com que o junco chegasse são e salvo aqui, na Campina da Cascavel. Esse imenso navio que abrigava mais de três mil homens e outro tanto de concubinas aportou ali, próximo à Femi.

Ficaram deveras extasiados com a natureza nauseante de nossos lindos bosques e terras produtivas. Desmancharam a nau para construírem casas, pois sabiam de antemão que se encontravam a quilômetros e quilômetros de distância do mar e naquela época não existia celular para pedirem socorro. Em seguida executaram os funerais tradicionais daqueles mortos em combate com o mar ou que não resistiram à dura empreitada de serem arremessados cruelmente por sobre imensidões de terra. Foram dias tristes.

Porém, como todo mundo sabe, as cascavéis da Campina da Cascavel mostraram suas pegajosas e venenosas entranhas naquele universo chinês abortado sem dó nem piedade para levar outros tantos homens e mulheres para morrerem à míngua. E elas sumiram depois de picarem essa gente estranha e alheia; eu, particularmente, nunca vi uma por aqui ou soube do aparecimento de alguma. Creio que elas duraram até o aparecimento dos índios que aqui se instalaram.

Os chineses remanescentes tomaram por esposas as concubinas destinadas aos soberanos europeus para constituírem famílias, porém acredito que muitos entre si eram parentes e assim sendo as relações eram estéreis.

Com os mortos no imbróglio e outros por veneno, outros ainda por disputas internas de poder e mulheres, foram-se matando um a um, chegando talvez a uma população de no máximo trezentas pessoas. Os juncos apodreceram no primeiro dilúvio que registraram em seus diários de papiro, porque infelizmente eles não conheciam as intempéries de nossa cidade e não basta ser chinês, tem que ter brio para viver aqui. Os poucos filhos nascidos dessas relações morriam em seguida por não terem condições de alimentação; seus víveres de outrora foram arremessados pelo vento inclemente de um dos primeiros vendavais que eles presenciaram agarrados e amarrados em tocos de árvores para não saírem voando e tenho certeza que muitos deles se aventuraram nesse pormenor, achando que a velocidade daquele vento os levaria de volta à pátria amada. Nunca se soube deles, se chegaram ou não ou se caíram por terra em Abelardo Luz ou Bom Jesus.

Muitos anos depois a população estaria reduzida a míseros vinte capacitados para viver nesse solo primaveril utilizando-se de tudo o que encontravam para poder sobreviver e tinham – tenho a certeza – dentro de si a calma e tranquila esperança de serem encontrados algum dia por algum forasteiro conquistador e explorador, podendo ser de qualquer nacionalidade, já que naquela altura do campeonato os borrachudos deixavam chagas purulentas que não tinha espaço para predileções de salvamento.

Nesse ínterim aparecem os caingangues, bravos guerreiros indígenas que chegaram chegando, empunhando machadinhas e pedras pontudas gritando num dialeto inverossímil que se rendessem em paz, matando primeiramente as cascavéis depois esfumaçaram com um pestilento remédio os borrachudos e fincaram o primeiro pau da oca bem onde o junco antes altivo e predador havia atracado por algum motivo que nenhum dos sobreviventes lembrava mais e nem tinham como dizer isso para aqueles selvagens que pinicavam suas costas para fazê-los reféns e por fim, incorporaram-nos à aldeia.

É isso. E é esse triste presságio secular que nos tirou dos mapas múndis em 1400 e onde antevejo em sonho e em letras góticas, pontuando na cartografia o que jamais aconteceria: “Ultimum Refugium Venenata”, referindo-se à nossa gloriosa Campina da Cascavel.



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